domingo, 9 de setembro de 2012

IRMÃ LOURDES E O GALO MISSIONÁRIO




 




Às vezes não temos ideia do que Deus pode fazer através de nós, Ele pode glorificar seu nome através de ações simples e despretensiosas, que nos permitimos, movidas por motivações puras.

Em dezembro de 2001 O pr. Gildário, líder da Igrela Batista Missionária, na cidade de Itaporanga – PB, chegou em minha sala no Seminário Sertanejo (Seminário Teológico do Ministério Juvep), semelhante aos primeiros dias que o vi quando passei a morar em Itaporanga, 9 meses antes.

Percebendo o seu estado de ansiedade convidei-o para sentar e contar as novidades. Ele desabafou:

- Essa historia de missões é conversa fiada. Tudo é ilusão e mentira. O dinheiro não chega, as feiras não chegam.... "

Depois de ouvi-lo perguntei o que estava acontecendo de fato. Ele então respondeu:
- Estou passando por uma humilhação muito grande. Peço um real a um e a outro para que o programa do rádio não acabe".

A igreja tinha um programa em uma rádio comunitária com duração de uma hora, um dia por semana, o valor mensal para espaço radiofônico era de cinquenta reais.


O Fusca Zé Gotinha


Continuou então Gildário a falar:

- Não tem dinheiro para usar o fusquinha do Seminário Sertanejo para visitar as ovelhas.

Um esclarecimento: o nosso fusquinha estava à disposição de sua igreja. Devido a falta de dinheiro, era costume o Gildário colocar apenas um litro, às vezes só metade de um litro de gasolina no fusca. O frentista do posto passou a chamar o carro de Zé Gotinha, numa alusão ao personagem da campanha do governo para a vacinação da pólio.

Ele conclui de forma pessimista:

- Está tudo errado, eu não sei mais em quem acreditar. Os homens estão segurando as bênçãos de Deus.

Diante da realidade passei a tentar leva-lo a uma reflexão lógica: se o dinheiro não vinha já há vários meses era porque Deus não estava no assunto. E sugeri ao Gildário que desistisse tanto do programa do rádio quanto da ida a zona rural para visitar as ovelhas, até que a situação financeira melhorasse. Ele gritou irado:

- "Eu não desisto! Se desistir vão me chamar de covarde".

Insisti na analise racional dos fatos afirmando que não tinha lógica aquela teimosia. O Gildário muito bravo falou:
- "Tem lógica sim. Eu vou continuar e pode dar o que der. Se eu desistir me chamarão de derrotado. Eu não sou derrotado! Dirão que eu sou covarde. Eu não sou covarde!. EU NÃO VOU DESISTIR"!


A Rifa do Galo


Percebi que se tratava de algo além da razão e da lógica. Aquietei-me e esperei Gildário acalmar-se.
Ele, mais tranquilo ofereceu algo inesperado para mim.

Disse: 
- Ao invés de estar me desanimando me compre uma rifa. 

Sem entender perguntei: 
- Que rifa ? 
Ele respondeu:
- A rifa do galo".

O Pr. Gildário, apelou para a igreja que arrecada por mês R$ 350,00 em média entre dízimos e ofertas, uma oferta especial para pagar a manutenção do programa de rádio semanal que tem potencial para atingir mais de cinquenta mil pessoas com o evangelho de Jesus numa das áreas mais carentes da Palavra no Brasil.

O valor do custo era de apenas R$ 50,00 mensais, mas a igreja tinha um déficit de mais de R$ 150,00. 
Ele pediu suplicando as suas ovelhas: 
- "Se agente não tiver o dinheiro do programa do rádio ele vai acabar"
Decidiu-se levantar uma oferta especial no culto á noite para poder salvar o programa de rádio. Havia cerca de 50 pessoas presentes, e diante deste auditório fez-se o desafio para que cada um contribuisse com R$ 1,00 para pagar o aluguel de R$ 50,00 que estava com 3 meses de atrazo, e com ameaça de ser retirado do ar caso entrasse em mais um mes de atrazo. Desta forma consegui-se levantar com muita dificuldade R$ 16,00 o que era uma grande oferta para a realidade da igreja, porém insuficiente.

Uma senhora crente, penalizada com aquela realidade, no outro dia chega com um galo e falou: 
- "Pastor eu não tenho dinheiro mas o que tenho dou. Esse galo é para o programa do rádio, venda ele, e que Deus abençoe" .

A senhora era a irmã Lourdes, casada com o irmão Tota, que eram meieiros num sítio da região. Não tinham renda mensal, a não ser o bolsa escola do governo. Moram a 14 km da cidade, no sitio Capim Grosso.

Não comprei a rifa, mas fiquei impactado e sensibilizado com aquela realidade. Resolvi então escrever uma carta desafiando as igrejas do Brasil e coloquei na internet.
Quando a carta passou a circular na rede o retorno foi imediato. Várias ofertas de inumeras igrejas, das mais diversas cidades, até fora do Brasil chegaram para abençoar o sertanejo da região do Vale do Piancó, Sertão da Paraíba, área muito carente com uma população evangélica ainda pequena, principalmente na zona rural.
As portas finalmente se abriram para o pr. Gildário. Nunca mais faltaram recursos. Deus passou a suprir.
Toneladas de alimentos chegaram no inicio de 2002 para serem distribuídas entre os carentes (o período de seca tinha trazido indícios de fome em algumas casas), o programa do radio foi adotado por um ano inicialmente por um irmão de Brasília, alunos do Seminário Sertanejo da Juvep foram abençoados com bolsas de estudo, a maioria deles não podia pagar o equivalente hoje a R$ 40,00 por mês; os filhos do pr. Gildário foram adotados na área de saúde, ganharam um plano de saúde nacional por um ano, etc.
Porem a irmã Lourdes, em termos materiais, não tinha recebido nada até então.


Deus Proverá


Seis meses depois ao ler a história, o pastor Jeremias Pereira da Oitava Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte, ficou bastante emocionado e resolveu contar esse testemunho em todos os lugares onde era convidado a pregar.

Um dia ia passando um vizinho que perguntou a Lourdes se ela já tinha uma geladeira em casa, ela respondeu que ainda não. Então ele falou: "que miséria é essa Lourdes! Tu estás aí morando em uma casa de taipa, de chão batido, com fogão a lenha. Essa estória de ser crente é conversa fiada". Lourdes respondeu calmamente: "Deus proverá, Deus proverá".

Poucos dias depois, em Toronto no Canadá duas jovens ao ouvirem o Pr. Jeremias falar do testemunho do galo, em um acampamento evangélico, procuraram o pastor e disseram: "nós não queremos ofertar nem para o pastor do galo nem para a igreja do galo, queremos ofertar para a irmã que deu o galo". Doaram o equivalente a R$ 800,00. A irmã Lourdes nunca havia pegado em tanto dinheiro de uma só vez. Ela comprou então uma geladeira nova e passou a fazer sacolé (chup-chup) para levantar uma renda extra.!


O Galo canta em Nova York


Mas não ficou só nisso. Ao ouvirem esse testemunho, a Primeira Igreja Batista para Brasileiros em Nova York sensibilizada, resolveu construir uma casa para irmã Lourdes, A dela era de taipa, o piso de terra batida e em terreno que não era deles.

Ao receber o e-mail do Pr. Francisco Izidoro, titular da igreja em Nova York, aleguei que mais importante naquele momento do que a casa seria uma terra para plantar, já que eram Sem Terra.

A igreja prontamente levantou o equivalente a R$ 7.000,00 (em valores de hoje: R$ 18.800,00) e comprou uma terra com um poço perene, (algo raro no sertão) para a família que deu o galo.

A família da Lourdes ficou como quem sonha: eram, agora, donos de uma propriedade. Realidade distante para simples agricultores que, nem os pais, nem os avós tiveram esse privilégio.

Com a terra veio outra benção, a oferta de uma bomba d`água para irrigação conseguida pelo Pr. Jeremias de Belo Horizonte. Se houvesse irrigação para todos não haveria fome no sertão.


A Casa do Galo


Um outro sonho ainda se tornaria realidade, o da casa própria e de alvenaria. A igreja em Nova York ainda comprometida com a construção da casa enviou paulatinamente, com sacrifício, os recursos para a construção da casa. Foi construída uma casa com 135 m2 de área, três quartos, sendo um suíte. O custo para construção em valores de hoje seria R$ 41.500,00 Uma mansão, um palácio, para o padrão rural do sertão, que Deus deu a irmã Lourdes e família.

Em janeiro de 2006 o Pr. Francisco Izidoro veio de Nova York para a inauguração da casa.


DEUS PROVEU !


A comunidade local estava quase toda presente, eram mais de 100 pessoas alegres com o milagre da provisão. A irmã Lourdes e o esposo Tota, o Pr. Gildário se emocionaram muito, choraram ao lembrarem de tudo que Deus promoveu nesses anos após o galo. Na inauguração da casa houve muita celebração e o nome de Deus foi glorificado.

A irmã Lourdes não entende muito bem, até hoje como aconteceu. Ela exclama de vez em quando: "Eu não fiz nada. Eu só queria ouvir a palavra de Deus e achava bacana ouvir os recados que o pastor mandava para agente aqui do sitio pela radio"

A sua motivação era apenas ajudar para que o programa não acabasse. A sua oferta foi como a oferta da viúva pobre: "ela deu tudo o que tinha" (Mc 12.41-44).

A história ainda não terminou...


O sertão continua carente, provavelmente não vamos resolver todos os problemas, mas podemos fazer a diferença para alguns:


<!--[if !supportLists]-->·     <!--[endif]-->Muitos líderes estão abandonados no campo sem assistência emocional, não recebem visitas, telefonemas, nem cartas. (caso queira visitar, telefonar ou, pelo menos, escrever temos o endereço de dezenas deles)

<!--[if !supportLists]-->·     <!--[endif]-->As mulheres missionárias, em sua grande maioria, quando adoecem são humilhadas com atendimentos desumanos. Ajude para que elas tenham direito a saúde descente – PLANO DE SAÚDE .

<!--[if !supportLists]-->·     <!--[endif]-->Algumas igrejas tem dificuldades para pagar a água e a luz elétrica


Veja o vídeo do Pr Jeremias contando a respeito do dízimo do galo




Fonte:


Pr. Pedro Luis da Silva

segunda-feira, 3 de setembro de 2012


A teologia de Avatar





O sucesso de “Avatar” foi bilionário. Os efeitos visuais do filme de J. Cameron são mesmo incríveis -- assisti em 3D. A mensagem central é alinhada ao que tem sido considerado politicamente correto pelo paradigma socialoide, tanto antropológica como ecologicamente. Milhares de povos têm sido de fato destruídos ao longo da história por causa da ganância império-colonialista, que passa como um rolo compressor por cima de terras, casas, referências culturais, corpos e o que mais for preciso em nome do lucro. Tangencialmente somos informados que a Terra já teria seu habitat destruído -- e agora vemos os homens (machos brancos) exportando para os limites da galáxia a cultura de exploração destrutiva, garantida por tropas militares (mercenários sem bandeira, mas que se comunicam no idioma do mercado...), enquanto os frágeis (mulher e deficiente físico) salvam o mundo imaginado no espaço. Uma projeção na telona das angústias e anseios da humanidade.

Então, a mensagem de preservação de povos, culturas e o meio ambiente é bacana e necessária. Porém chamo a atenção para a teologia (o discurso sobre o deus, o divino, a deidade) que é sedimentada na mente dos expectadores "almiabertos" (boquiabertos). Não é questão de demonizar a produção e não assistir ao filme, mas de saber os corantes e conservantes que o compõem e aos quais somos expostos (e que não são informados na embalagem) e que, em alguns casos, colateralmente, poderão redundar nalgum câncer espiritual.

Cito a Wikipédia, por ser uma referência popular: "Avatar é uma manifestação corporal de um ser imortal, segundo a religião hindu, por vezes até do Ser Supremo. Deriva do sânscrito ‘Avatāra’, que significa ‘descida’, normalmente denotando uma (religião), encarnações de Vishnu (tais como Krishna), que muitos hinduístas reverenciam como divindade... Qualquer espírito que ocupe um corpo de carne, representando assim uma manifestação divina na Terra...” Quando essa forma impersonalizada de Deus transcende daquela dimensão elevada para o plano material do mundo, ele -- ou ela -- é conhecido então como a encarnação ou Avatara... Em uma concepção mais abrangente, a encarnação poderia ser descrita como o corpo de carne. Mas essa concepção seria talvez errada, conquanto tais formas divinas não se tornam reais seres de carne e osso, ou assumem corpos materiais. Uma alma comum assume corpos materiais de carne e osso, mas no caso dessa manifestação divina, seu corpo e sua alma transcendem a matéria e, embora apareçam como impersonalizações, aquele corpo também pertence a sua essência espiritual... Essa palavra “Avatar” se tornou popular entre os meios de comunicação e informática devido às figuras que são criadas à imagem e semelhança do usuário, permitindo sua "impersonalização" no interior das máquinas e telas de computador... Tal criação assemelha-se a um avatar por ser uma transcendência da imagem da pessoa, que ganha um corpo virtual, desde os anos 80, quando o nome foi usado pela primeira vez em um jogo de computador... Mas a primeira concepção de avatar vem primariamente dos textos hindus, que citam Krishna como o oitavo avatar -- ou encarnação -- de Vishnu, a quem muitos hindus adoravam como um Deus”.

Não há como ignorar o componente teológico envolvido no filme. Primeiro, pelo nome do filme em si (a orientalização do Ocidente é uma tendência que vem crescendo desde meados do século 20), assim como por um linguajar que faz referência e remete ao hinduísmo. Segundo, pela ideia de espírito / mente de um ser "transmigrar" para outro corpo (em “Avatar”, paralelamente, num mesmo tempo e espaço; no hinduísmo, sucessivamente, noutro tempo e forma de vida). Terceiro, e principalmente, pela noção panteísta de divindade, ou seja, um poder divino embutido na natureza, visualizado e adorado em forma de árvore especial, com a qual é possível estabelecer contato e comunicação (é pessoal), que elege seres para tarefas salvíficas, que mantém aquele mundo em equilíbrio, que move os elementos (animais, por exemplo) que compõem aquele cosmos, que toma a vida (decide quem continua a viver), que realiza o milagre de transferir efetivamente uma alma de um corpo para outro. Quarto, pela semelhança sonora entre o nome da divindade (Eiwa) com Jeová. Seria a tentativa de alguma redefinição do Deus revelado por Jesus, segundo a Escritura? (A tendência atual não é ateísmo, mas uma forma religiosa natural, mais palatável que o Deus bíblico.) Ainda há outros aspectos, mas esses bastam para mostrar o ponto: “Avatar” está cheio de elementos teológicos, no caso, panteístas.

O contraste com o Deus da Bíblia é enorme, pois ele é o Deus Eterno, Criador, o Deus Soberano no universo (não limitado a uma lua do cosmos), o Deus que é espírito puro, o Deus Pai de Jesus Cristo (chamado por alguns hindus modernos de um avatar...), o Deus que ama e salva a sua criação entrando na história e assumindo a cruz para resgatá-la.

Sem paranoia, mas vigiando (levando em conta que J. Cameron patrocinou um documentário que questiona a ressurreição de Jesus), o que a cultura contemporânea vem sedimentando em nossa alma? Quais serão os efeitos espirituais reais que tal cosmovisão terá sobre a mente de milhões de consumidores desse tipo de cultura?

Pessoalmente, não gostaria de viver em sociedades como as que a teologia hindu pariu (idealizada pela novela “Caminho das Índias”). É claro, portanto, que há uma relação direta entre a teologia e o modo de vida, entre uma teologia idólatra e um modo de vida igualmente reduzido, entre uma concepção panteísta da divindade e uma espiritualidade esvaziada da cruz.

Não vivemos sem cultura. Alimentamo-nos constantemente dela. Esse artigo tem por objetivo despertar a atenção para as expressões culturais que ingerimos. A ideia é provocar reflexão e reação. Gostaria muito de saber quais foram as suas impressões sobre o filme, de ouvir sua ressonância, ainda mais que o diretor já anunciou a continuação de “Avatar” em mais um ou dois filmes.

Por: Christian Gillis é casado com Juliana e pai de 3 garotos. Pastor da Igreja Batista da Redenção por 20 anos, é envolvido com ministérios relacionados a missões, reflexão e juventude. Trabalhou na Mocidade para Cristo do Brasil aonde ocupou o cargo de Diretor de treinamento