quarta-feira, 29 de maio de 2013

quanto-o-universo-me-paga-para-nao-estar-no-facebook
Paulo Brabo
Duas cur­tas adver­tên­cias: [1] sou tão super­fi­cial quanto qual­quer um; [2] claro que um dia vou capi­tu­lar: claro que um dia vou fazer parte da rede social mais popu­lar do planeta.
Isso não muda o fato de que o uni­verso me paga, dia após dia, para não ceder ao Face­book. Falo, é claro, do uni­verso offline do café com bolo de fubá, da tra­ves­sia de fer­ry­boat, da casa alu­gada na praia, do boli­nho de carne seca comido no bar, de espe­rar que o amigo saia final­mente da sala de desem­bar­que, da cor­te­sia na fila do cor­reio, das pes­soas que impri­mem livros e das que os com­pram, das ruas de Mor­re­tes, dos últi­mos pas­to­res de ove­lhas da Itá­lia, da velha senhora que é tia de alguém e que mora sozi­nha entre mor­ros arre­don­da­dos no inte­rior de Minas Gerais e faz a pró­pria fari­nha de milho num mon­jolo movido a córrego.
Incri­vel­mente, esse uni­verso me veste, me ali­menta, faz água cair do céu e faz o vento var­rer meus cabe­los no alto da mon­ta­nha como num comer­cial de sham­poo. Ele me manda livros, car­tões pos­tais, cho­co­late e batata frita, e me mas­sa­geia las­ci­va­mente as cos­tas na cacho­eira. Como um apai­xo­nado que não se sabe mode­rar, o uni­verso me manda gente que me ofe­rece café, que me faz comida, que me chama de irmão, que me toca a mão, que me ouve cho­rar, que se mara­vi­lha com as mes­mas coi­sas, que dorme comigo, que colhe comigo cogu­me­los, que me pre­sen­teia com CDs, que me serve chá de capim-​​cidreira, que me traz gar­ra­fas de bom vinho, que me dá flores.
Dia após dia, em todos os seus dia­le­tos, o uni­verso me repete uma mesma frase: pegue o que você precisar.
“Brabo,” o uni­verso me diz, “pegue o que você precisar”.
Ele pede uma única coisa em troca, e o que ele pede é tre­men­da­mente exi­gente: que eu con­ti­nue a dese­jar aquilo que con­si­dero desejável.
É claro que o mundo de abra­ços e de café e de pura cone­xão entre as pes­soas que desejo não existe fora da minha cabeça, mas repito: o uni­verso não cessa de me pagar para con­ti­nuar sonhando com ele. E é com essa pro­pina que ele vai me impe­dindo de dese­jar o Facebook.
O Face­book sabe que é com frequên­cia difí­cil para mim estar onde estou, e ele quer me con­for­tar com a impres­são de que estou em outro lugar. O Face­book sabe que às vezes é difí­cil para mim estar com quem estou, e ele quer me con­for­tar com a lem­brança de que tenho cone­xões muito reais em outro lugar. O Face­book sabe que mui­tas vezes não tenho paci­ên­cia ou cora­gem de mover-​​me de onde estou para onde gos­ta­ria de estar, e ele quer me con­for­tar com a sen­sa­ção de ter trans­posto a distância.
Meu desa­fio pes­soal mais antigo foi sem­pre expe­ri­men­tar a rea­li­dade sem sub­ter­fú­gios: estar onde estou. A solu­ção, quando há, sem­pre foi mover-​​me para onde não estou.
O Face­book me con­vida inces­san­te­mente a fazer o con­trá­rio: a não estar onde estou e anão mover-​​me para onde não estou – e seria tal­vez mais fácil ceder ao con­vite se ele não for­çasse a barra cha­mando essa doce imo­bi­li­dade de cone­xão. Natu­ral­mente, é pre­ci­sa­mente essa moda­li­dade de cone­xão aquela que quero, e tal­vez seja a única que expe­ri­mento. Como tudo mundo, quero obser­var a beleza do uni­verso sem comprometer-​​me com seus desa­fios; quero admi­rar gente de longe sem ter de pagar os ris­cos de uma rede viva e com­plexa de rela­ções. Minha vida seria mais fácil se os cofres do cora­ção não trans­bor­das­sem daquilo que o uni­verso me dá coti­di­a­na­mente para con­ti­nuar a não con­si­de­rar essa con­di­ção (veja o comer­cial abaixo) como desejável.

terça-feira, 28 de maio de 2013


Hino ou Cântico?


Um dia desses topei com um texto falando sobre a eterna briga entre o velho e o novo no que diz respeito ao louvor congregacional. 

Achei que o autor tinha captado exatamente o ponto: é tudo uma questão de gosto, apesar de que também há certas coisas que não são fáceis de engolir de parte a parte.

Era impossível traduzir a ideia original literalmente, então fiz uma adaptação que mantivesse o “espírito da coisa”. É mais ou menos assim:

Um senhor viajava a negócios sozinho e foi parar em uma igreja em uma grande cidade. Ao chegar em casa, sua esposa lhe perguntou como tinha sido. Ele disse: “Foi quase igual à nossa igreja, mas eles cantavam música “contemporânea”, como eles chamavam”.

“Música contemporânea?” perguntou a mulher. “Como assim?”

“Ah, é um tipo de hino, mas um pouquinho diferente”, disse o senhor.

“Mas, qual a diferença?”

“Bom, é mais ou menos assim: se eles fossem cantar ‘Batatinha quando nasce esparrama pelo chão’, seria um hino. Agora, se fosse...

Batata, batata, batata, batatinha, batatinha, batatinha
Batatinha ô ô ô ô ô ô  Batatinha ô ô ô ô ô ô
Quando quando nasce, quando quando nasce, nasce e nasce
Esparrama, esparrama pelo chão, pelo chão, pelo chão, e chão e chão.
E o nenenzinho põe, põe, põe, põe, põe, põe, põe,
A mão, a mãozinha, a mão santa, a mão bela, a mão, a mão, a mão
No coração (18 x)...
...aí já seria um ‘cântico contemporâneo’, entendeu?”

Na outra semana, um jovem executivo, também em viagem, entrou em uma igreja mais tradicional. Chegando em casa, o mesmo diálogo. A esposa pergunta como foi e ele responde que foi tudo quase igual à igreja deles, mas eles cantavam “hinos tradicionais”. “Como assim?”, pergunta a mulher.

“Ah, é um tipo de cântico, um pouquinho diferente”, diz o rapaz.

“Mas, qual a diferença?”

““Bom, é mais ou menos assim: se eles fossem cantar ‘Batatinha quando nasce esparrama pelo chão’, seria um cântico contemporâneo. Agora, se fosse...

1.      Ó, Batata, a lide chama
Pelo chão que esparramais;
Vinde e vede a nós que embala
Com canções angelicais

ESTRIBILHO
Ó, tubérculo precioso, fonte que és de inspiração
Puro infante gracioso, põe a mão no coração

2.       Seja vós de nós dignada
Deste fértil solo aqui
Tu, batata aqui plantada
Alimento produzi!

3.       Que do doce sono embale
O rebento a dormitar.
Que procela alguma abale
Coração a abraçar.

“Aí”, completa o jovem, “já seria um ‘hino tradicional’”!

Adaptado de http://www.apuritansmind.com/the-christian-walk/a-funny-little-story-about-hymns-and-praise-songs-by-author-unknown/